A estimativa do Comsefaz sobre bets diz que as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões. Por que este número está errado?


O debate sobre as apostas esportivas no Brasil foi contaminado por uma confusão metodológica que, se não for separada com cuidado, leva a conclusões erradas. O número de R$ 62,5 bilhões aparece como se fosse uma medição direta do quanto as famílias brasileiras teriam “perdido” com bets em 2025. Mas, ao abrir a fonte original, o que se encontra não é uma apuração contábil do setor de apostas — e sim uma estimativa estatística construída sobre uma base agregada e imperfeita.
O ponto de partida é o próprio estudo do Comsefaz, na 3ª atualização do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros. Nas páginas 38 a 40, o documento explica que a estimativa foi feita a partir de dados de pagamentos via Pix e de uma projeção contrafactual construída com modelo ARIMA. Em outras palavras: o relatório compara o que aconteceu na série com o que o modelo esperava que acontecesse caso não houvesse o choque das apostas. Tudo o que excede essa projeção é atribuído ao mercado de bets.
O próprio texto registra que se trata de uma estimativa de ordem de grandeza, não de mensuração causal precisa.
Esse detalhe muda tudo. Quando se trabalha com contrafactual, não se está medindo o fenômeno diretamente; está-se inferindo um desvio em relação a uma trajetória projetada. Isso pode ser útil para enxergar tendência, mas tem um limite óbvio: o modelo só é tão bom quanto a base que ele observa. Se a série usada já reúne atividades diferentes dentro do mesmo agrupamento, a inferência não separa com nitidez o que é aposta e o que é outra atividade econômica.comsefaz-update-3.pdf+1
A estimativa do Comsefaz sobre bets usa uma categoria mais ampla
A crítica metodológica ganha força quando se olha a base escolhida pelo estudo. A conta do Comsefaz não se apoia em uma base exclusiva de apostas esportivas. Ela usa a Seção R da CNAE/CONCLA, que oficialmente é “Artes, cultura, esporte e recreação”. Dentro dela existe a Divisão 92, de “Atividades de exploração de jogos de azar e apostas”, mas essa divisão não esgota a seção inteira. A própria estrutura da CONCLA mostra isso de forma explícita.
Isso significa que a base usada na estimativa do Comsefaz sobre bets é agregada. E base agregada gera um problema simples: o modelo não enxerga apenas bets. Ele enxerga um conjunto de pagamentos classificados sob a mesma seção econômica, que pode incluir também eventos, academias, clubes, atividades culturais, lazer e outras rubricas correlatas. Se o objetivo é medir apenas apostas esportivas, o método não isola isso com precisão suficiente.c
Para quem quiser conferir pessoalmente, a forma mais direta é abrir a estrutura oficial da CNAE no site do IBGE/CONCLA e pesquisar pela Seção R ou por uma subclasse ligada a apostas, como 9001-9/02. O resultado aparece com a seção e a divisão correspondentes. A própria imagem da CONCLA mostra a hierarquia: Seção R, Divisão 92 e o enquadramento de jogos de azar e apostas.
O que é fluxo agregado
Outro ponto importante é entender o que significa fluxo agregado. No caso do estudo, estamos falando de transferências via Pix agrupadas por categoria econômica. Isso não é o mesmo que observar a operação individual de uma casa de apostas, com entradas, saídas, prêmios pagos, custos e tributos. É um retrato consolidado de pagamentos, não a contabilidade completa do setor.
Esse é o motivo pelo qual o número de R$ 62,5 bilhões não pode ser tratado como equivalente ao faturamento regulado das bets. O que o Comsefaz calcula é uma estimativa de saída líquida atribuída à categoria ampla analisada; o que a SPA divulga é o GGR regulado, isto é, a receita bruta de jogo informada pelos operadores autorizados. São métricas diferentes, construídas com finalidades diferentes.
O dado oficial da SPA é outro tipo de informação
Na página oficial da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, o relatório periódico de apostas de quota fixa informa que o mercado regulado teve GGR de R$ 36.959.783.379,70 em 2025, com dados reportados pelas operadoras via SIGAP.
O documento também registra 25.245.319 CPFs únicos que apostaram. Para localizar esse material, basta acessar a página da SPA sobre apostas de quota fixa e procurar o PDF do “Panorama Periódico do mercado regulado” ou o relatório periódico de 2026, que reúne os dados de 1º de janeiro a 30 de dezembro de 2025
Aqui também está a chave do debate. O dado da SPA é regulatório e declaratório. Ele parte das informações enviadas pelas operadoras autorizadas. Já o número do Comsefaz é uma inferência econométrica sobre um agregado de pagamentos. Comparar os dois como se fossem a mesma coisa é um erro de categoria.
Onde está o exagero
O exagero não está em haver uma estimativa. Estimativas são válidas e úteis em temas ainda em consolidação. O problema está em tratar essa estimativa como se ela medisse diretamente o dano econômico das apostas ou como se fosse uma fotografia fiel do mercado regulado.
O próprio boletim reconhece que o resultado é uma ordem de grandeza. Isso quer dizer que ele serve para indicar magnitude, não para fechar a conta do fenômeno. Além disso, quando o estudo atribui todo o desvio da série à expansão das bets, ele deixa de fora a possibilidade de crescimento de outros segmentos dentro da mesma seção da CNAE. Esse é o ponto em que a metodologia perde precisão e pode superestimar o papel das apostas no número final.comsefaz-update-3.pdf+1
Onde a dúvida continua legítima
O ponto mais honesto a ser sustentado é este: o número de R$ 62,5 bilhões não é falso por definição, mas também não pode ser tratado como se fosse uma mensuração direta das apostas esportivas no Brasil. Ele é o resultado de uma modelagem indireta, sensível à base usada, ao corte temporal escolhido e à forma como a série foi agrupada.
Por isso, o debate correto não é apenas sobre “quanto o setor movimenta”, mas sobre como se mede esse movimento. Se a base é agregada demais, a inferência fica menos precisa. Se o modelo não isola o componente específico de bets, o resultado pode absorver atividades que não são apostas. E se o dado da SPA é regulatório, não se pode jogá-lo na mesma categoria de uma estimativa contrafactual como se ambos medíssemos a mesma coisa.
Conclusão
No fim, o problema central é de método, não de retórica. A cifra de R$ 62,5 bilhões não deve ser lida como uma verdade contábil fechada sobre perdas das famílias com apostas esportivas. Ela é uma estimativa construída a partir de uma categoria ampla, usando contrafactual e série agregada de pagamentos.
Quem quiser conferir isso por conta própria deve olhar três pontos: as páginas 38 a 40 do boletim do Comsefaz; a estrutura oficial da Seção R da CNAE/CONCLA; e o relatório periódico da SPA/MF com o GGR de 2025. É ali que a divergência entre as métricas aparece com clareza.
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